segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O AVÔ E O NETO NA PRAÇA D. ERMELINDA III


Trimmmmmmmmm!

- Ô! meu neto. O que o traz aqui a esta hora da manhã?
- Tudo bem? vô. Vim para lhe acompanhar no seu passeio na praça d. Ermelinda.
- Então vamos lá. Eu já estava de saída.
- Espera um pouco, vô, deixe-me dar um beijo na vó.
- Podemos ir?
- Claro! meu neto, só vou deixar este livro aqui que estava levando para ler na praça. Com sua companhia não preciso de outra.
- “Pontas de Fogo”, de Gilberto Barroso de Carvalho. Interessante! vô.
- Se você gostou, pegue-o emprestado.
- Han, sim. Obrigado.

E juntos, caminharam avô e neto para a praça.

- Meu neto, vamos nos sentar hoje mais no centro da praça?
- Aonde quiser, vô. Não faço nenhuma objeção. Vamos, então, sentar ao lado do busto do autor de “Pontas de Fogo”?
-Vamos, sim.

E o neto deu uma folheada no “Pontas de Fogo” e parou na página do poema “Mentira Azul”.

-Título bonito e enigmático este: “Mentira Azul”. Heim, vô? Quer que eu o leia para o senhor?
- Faz favor, meu neto.
- Então lá vai:

“Minha amiga,
Recebi tua carta e em seus dizeres
Senti que a alma tens presa a um mito antigo.
Que em troca dos reais e bons prazeres
Queres o céu, casa de um Deus amigo.
Pobre de ti!
Há pois para escolheres
Os dois caminhos que traçar consigo:
Um, em que a Luz deslumbra os vivos seres,
Outro em que a treva marchará contigo.
O da Luz, é o da Terra alegre e clara,
Da Vida que vivemos, desta seara
Que em nossas almas lavra o Amor taful.
O outro é o do Céu - uma esplanada altura
Que à alma entristece e a vida desfigura
E é nada mais que uma mentira azul.”

- Vô, o senhor sabe o significado de taful?
- Meu neto, em casa pegue o dicionário.
- He! he! he! Tá bem, vô.

- Vô, estou já há algum tempo para lhe perguntar sobre a Sociedade Operária, cuja sede fica ali do outro lado da rua, porque quase não vejo movimento lá.
- A sede da Sociedade foi construída em 1926. Por ali nunca houve mesmo muito movimento, não. Com os movimentos sociais que ocorreram no Brasil, como o “Anarquista” em S. Paulo, nunca se permitiu que ali tivessem mais do que cursos como de corte e costura para as mulheres, alfabetização de adultos e, claro, time de futebol para os homens.
- Mas quem, vô, não permitia que tivesse outros movimentos lá?
- Meu neto, você hoje está um pouco com preguiça de pensar! E você deve estudar mais história.

- Tem razão, vô. Vô, a prosa tá boa, mas escutou o relógio da Igreja?
- Vamos almoçar, meu neto.


No “Espaço do Marcelino” (http://www.marcellino.xpg.com.br/2.html ) tem uma biografia muito boa do Gilberto Barroso de Carvalho. Vale a pena conferir.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O AVÔ E O NETO NA PRAÇA D. ERMELINDA II


Trimmmmmmmm! Trimmmmmmmm!

- Olá! meu neto. Já vi que você esqueceu? A esta hora do dia seu avô está aonde?
- É mesmo vó! Está lá na praça d. Ermelinda. Mas que cabeça a minha! Está tudo bem com a senhora?
- Estou ótima, meu neto! Não deixe seu avô se atrasar pro almoço.
- Tá bem, vó.

E o neto encontrou seu avô no lugar de sempre na praça d. Ermelinda.

- E aí vô, pensando na vida! Quem pensa muito na vida não casa!
- Ô meu neto! você por aqui. Que vento o traz? Achegue-se.

- Vô, as árvores da praça estão bonitas.
- Estão, sim. Nesta época do ano elas ficam mais belas. Quem plantou e cuidou por muito tempo da maioria destas árvores foi seu Zapp, um imigrante italiano que tinha muito amor por vegetações.

-Vô, qual é a finalidade daquela casinha tipo chinesa ali no meio da praça?
- Aquilo virou um depósito de tudo aqui da praça. Inicialmente foi viveiro de passarinhos. Esse tal viveiro foi inaugurado no final dos anos sessenta passados. E não eram somente passarinhos que prendiam ali, eram também lagartos, cágados, coelhos. Uma espécie de mini-zoológico da fauna dos resquícios da Mata Atlântica daqui do nosso município. O povo fez uma piada na época da inauguração do viveiro: “a primeira dama perguntava para o prefeito, um amante de passarinhos, qual era o nome dos pássaros. E o prefeito ia dizendo, até que teve que responder: ignoro - o nome do pássaro, evidentemente. Então a primeira dama exclamou: Ah! mas que casalzinho de “ignorinho” bonitinho!”
- Há! há! há! há! há! há!
- Você acredita, meu neto, que esse tal viveiro, feito de madeira de segunda e de tela de arame barato, foi tombado pelo patrimônio histórico do município?
- Inacreditável, vô!
- E é por isso que não puderam tirá-lo de lá. Então fizeram aquela casinha tipo chinesa para ser orquidário, mas acabou virando depósito.

E o relógio da Igreja com suas badaladas anunciou o horário do dia.

- Vô, vamos almoçar?
- Vamos, meu neto, porque senão sua avó vai brigar comigo.
CESÁREAS NO ESTADO DO RIO

Na coluna “GENTE BOA”, de Joaquim Ferreira dos Santos, do “Segundo Caderno” do jornal “O GLOBO”, de hoje, foi publicada estatística de cesáreas no Estado do Rio: 55,1%.

E disse o colunista:

“O número é alarmante, pois a Organização Mundial de Saúde recomenda que apenas 15% dos partos sejam através daquele procedimento cirúrgico.

Os municípios com índices elevados de cesáreas, segundo o Anuário de Estatístico do Rio que será divulgado hoje, pela Fundação CEPERJ, são: São José de Ubá com 93,3%, Itaocara com 90,8%, Aperibé com 86,6%, Santo Antônio de Pádua com 84,5%.

Entre 2002 e 2007 o número de parto normal caiu 18,31%.”

Todos os municípios com taxas alarmantes de cesáreas citados na notícia são do Noroeste Fluminense.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O AVÔ E O NETO NA PRAÇA D. ERMELINDA I


Trimmmmmm! Trimmmmmmm!

- É você! meu neto. Já sei! veio procurar seu avô pra bater uma prosa, né?
- Oi, vó, tudo bom com a senhora?
- Está tudo ótimo! meu neto. Só que seu avô não está. Ele foi, como de costume a esta hora do dia, dar suas voltinhas na praça D. Ermelinda.
- Então vou lá, vó, atrás dele. Tchau.
- Vai com Deus, meu filho!

E o neto foi à procura do avô. Ao entrar na praça, pela primeira entrada da rua Direita, avistou seu avô sentado num banco do passeio, à margem esquerda:

- Olá! vô. Tá aí quietinho pensando na vida?
- Ô meu neto! Como vai? Aprochegue-se.
- Tudo bom, vô. Vô, o senhor conheceu a praça d. Ermelinda com grade ou sem grade?
- Conheci sem grade. Você não imagina o perrengue que foi para conseguir colocar estas grades ao redor da praça. Os tempos mudaram, e os políticos, conservadores que só, demoraram muito pra entender que a melhor maneira de proteger a praça seria a colocação de grades. Mas, enfim, acabaram entendendo.

- Vô, por que a terra do passeio em frente é branca acinzentada?
- Li, em algum lugar, que este local era alagadiço. A terra é desta cor porque o terreno é argilífero. Quem fez esta praça, meu neto, foi o capitão Altivo Linhares, em 1931, quando foi interventor no município de Pádua, que naquela época também era nosso município, conforme você já deve ter aprendido na escola. Capitão Altivo era homem de visão extraordinária para sua época.

- Vô, não seria melhor calçar tudo isso?
- Já foi calçado um dia. Em 2008, tivemos um prefeito muito empreendedor, que promoveu uma boa reforma na praça. Na reforma, foram retiradas quase todas as descaracterizações da praça original e aproveitaram para colocar calçamento em todos os passeios e iluminação que valorizava o ambiente e as árvores da praça. Mais tarde foram retirados esta iluminação e os calçamentos dos passeios laterais da praça. De voltar a ser terra até que gostei, porque traz recordações do tempo que eu brincava de bolinha de gude e rodava pião. Os bancos também foram modificados de lugar, pois na reforma eles foram colocados de frente um para o outro. Também gostei desta mudança, porque quem vem sentar-se na praça não precisa ficar olhando pra cara do outro que senta em frente. Os bancos não devem ficar de frente pra praça?
- Certamente, vô.

- Vô, o que eu não consigo entender direito é aquele “paredão” que separa o ringue da praça.
É! Aquilo tem muita história. Você acredita que teve um prefeito que mandou construir no ringue um ginásio esportivo!
- Não brinca, vô!
- É verdade! E uma das finalidades do ginásio era a de servir de quadra de ensaio de escola de samba que, também, arregimentava eleitores. Depois o ginásio foi demolido e construíram uma arquibancada naquele lado do ringue e por isso tem o “paredão” pro lado da praça. Um belo dia vão tirar o “paredão” de lá! É questão de tempo!

-Vô, vamos embora porque a vovó deve estar preocupada. Já passou da hora do senhor almoçar.

domingo, 13 de dezembro de 2009

POPULAÇÃO DE MIRACEMA CAI 0,8% NESTA DÉCADA

Segundo matéria do jornal “O GLOBO” de hoje (“O Rio que encolhe”):

A população de Miracema deve recuar nesta década 0,8% para 26.824 habitantes.
Mais de 90% da arrecadação da cidade vem dos royalties do petróleo e do Fundo de Participação dos Municípios, que devido à crise internacional, sofreram forte redução: queda do preço do petróleo e a desoneração feita pelo governo federal nos Impostos de Renda e Sobre Produtos Industrializados (IPI).

Segundo o prefeito Ivany Samel, em depoimento àquele jornal, a previsão orçamentária para 2009 que era de R$ 44 milhões não deve chegar a R$ 30 milhões.

O especialista em desenvolvimento regional José Luiz Vianna, da UFF de Campos, ressalta outro problema enfrentado pelos municípios que estão com perda de população: - Como as novas gerações vão embora, os grupos políticos não se renovam. Sem idéias novas cria-se um ciclo vicioso.

Além de Miracema, outros três municípios do Noroeste Fluminense também terão recuo de suas populações: Itaocara (-2,3% para 22.459 habitantes), Cardoso Moreira (-0,9% para 12.481 habitantes) e Trajano Moraes (-1,2% para 9.915 habitantes).
A matéria do “O Globo” conta o drama de uma família de Itaocara, proprietária de pequeno sítio, para sobreviver e conviver longe de seus filhos que migraram para outras regiões do país.

Em 1930, início da derrocada da produção cafeeira em Miracema, a população do município era estimada em trinta mil habitantes. A maioria da população naquela época concentrava-se na zona rural.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

REPRESA DA USINA


Vi uma excelente e refrescante notícia no sítio oficial do município de Miracema: a represa da ex-Usina Santa Rosa está sendo reformada, pela Prefeitura. Com o calor que faz no verão em Miracema, a população bem que merece um “piscinão” para se refrescar. E de graça.

Tal notícia fez com que eu "viajasse" nos verões do meu tempo de moleque na "Terrinha". Eram várias as opções de banho de rio em Miracema. Acima da cidade, no seguimento do ribeirão Santo Antônio, existiam mais dois poços, além da represa da Usina. Os moleques achavam mais interessante o último desses poços, por causa do barranco que ali existia em uma das margens, na beira da estrada, com cerca de 4 metros de altura. Desse barranco os moleques mergulhavam no ribeirão. Com a construção da estrada Itaboraí-Itaperuna tais poços desapareceram.

O poço do Nensinho localizava-se onde hoje é a ponte em frente ao “Brizolão”, ao lado do parque de Exposições. Era o poço mais próximo, porém mais poluído que os demais, embora, naquela época, a cidade não estivesse tão desenvolvida naquela área quanto está hoje. Quando chovia muito na cabeceira da nascente do Santo Antônio, na serra de Flores, uns moleques mais "corajosos" desciam, pelas fortes correntezas que se formavam, da represa da Usina até o poço do Nenzinho apoiados em troncos de bananeira.

No Conde, havia, creio que ainda há, uma belíssima formação de lajeados com pequenas cachoeiras, que ficava localizada ao lado da linha férrea - hoje estrada Miracema-Campelo -, na altura da primeira ponte depois das olarias – onde hoje é o Segundo Pólo Industrial de Miracema. Mais adiante, dois poços do Seu José Arão, também com pequenas cachoeiras. Estes poços e o Conde eram habitados por jacarés, por isso e por serem localizados em zona de maior poluição, apesar do reforço de água limpa da afluência do ribeirão Sombreiro, eram poucos frequentados.

Fora do seguimento do ribeirão Santo Antônio, existiam, creio que ainda existem, os poços banhados pelo ribeirão Sombreiro, cerca de três poços localizados no Moura e o poço do Sombreiro, com uma pedra enorme que ocupava toda extensão de uma das margens.

Outro bom local de banho era na lagoa Preta. Uma linda e enorme lagoa artificial, que ficava na fazenda do pai do meu saudoso amigo Romário, seu Zeca Dono. Apesar da lagoa ser de propriedade privada, o banho lá funcionava como se fosse público. O dono da fazenda não se incomodava com a frequência dos banhistas. O banho na lagoa se tornava perigoso, devido a grande extensão de águas profundas. Outra característica de açude é a água morna por até cerca de 1m de profundidade e extremamente fria abaixo disso.

Na fazenda da Liberdade, os moleques, com a permissão dos seus donos, frequentavam seu imenso açude, que era rodeado por uma linda mata e tinha um bote para passear. Naquele lugar, mais passeávamos de bote do que tomávamos banho, pois tínhamos medo do silêncio daquelas águas profundas, parada e escura, rodeadas por matas nas margens, e também por medo de jacarés. Durante o passeio de bote, a molecada gostava de brincar com o eco que ressoava alto naquele lugar. O caminho para chegar ao píer do açude, onde ficava ancorado o bote, era rodeado por pomar. A molecada não resistia e quase sempre subtraía umas frutas. Na volta para casa acostumávamos cortar bambu de fazer vara de pescar para levar, que ali havia em abundância.

O rio Pomba, que banha o vilarejo de Paraoquena, a 14 Km de Miracema, a molecada frequentava pouco devido ao perigo que ofereciam os rios, com muitas pedras imprevistas encobertas por águas turvas que as fortes correntezas poderiam nos arremessar. Lá, normalmente, tomávamos banho em duas ou três praiazinhas, mas alguns moleques "corajosos" se aventuravam em descer nadando as correntezas fortes daquele rio.

Normalmente os banhos no ribeirão eram escondidos da minha mãe. Quando não havia condições de secar o calção, eu tomava banho pelado para não molha-lo e a minha mãe não descobrir. Certa vez, eu tirei o calção e deixei em cima da grama, na beirada do poço, e fui para o banho. Quando voltei para pegá-lo não o encontrei. Comecei a procurar e o vi na boca de um boi que o estava mastigando. Tomei o calção da boca do boi e o lavei, porém ele ficou muito rasgado pelas mastigadas do boi. Nesse dia tive que explicar essa história para minha mãe e, consequentemente, o pau comeu.

Depois que foi inaugurada a piscina do Clube XV de Novembro, os meus banhos de rio se tornaram menos frequentes.
Foto: obtida no sítio oficial do município de Miracema

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

INVENTÁRIO DAS FAZENDAS DO VALE DO PARAÍBA FLUMINENSE – 2ª Edição


A 2ª edição do “INVENTÁRIO DAS FAZENDAS DO VALE DO PARAÍBA FLUMINENSE”, muito noticiada por ocasião de seu lançamento, encontra-se disponível na rede.
O trabalho de inventário de oito fazendas de Miracema (Fazenda Boa Vista, Fazenda Cachoeira, Fazenda Liberdade, Fazenda Prosperidade, Fazenda Santa Cruz, Fazenda Santa Inês, Fazenda Santa Justa e Fazenda Serra Nova), no qual foram incluídas lindas fotos ilustrativas das fazendas, realizado pela equipe: Marcelo Salim de Martino (coordenador), Vitor Caveari Lage (levantamento de campo e digitação), Jean Rabelo Ferreira (Auto Cad) e apoio de Lia Márcia de Paula Bruno e Vera Lúcia Gonçalves Mota, pode ser visto por meio dos seguintes endereços eletrônicos:
Fazendas:

Boa Vista

http://www.institutocidadeviva.org.br/inventarios/sistema/wp-content/uploads/2009/11/20_boa-vista.pdf

Liberdade

http://www.institutocidadeviva.org.br/inventarios/sistema/wp-content/uploads/2009/11/18_-liberdade.pdf

Prosperidade

http://www.institutocidadeviva.org.br/inventarios/sistema/wp-content/uploads/2009/11/24_prosperidade.pdf

Cachoeira

http://www.institutocidadeviva.org.br/inventarios/sistema/wp-content/uploads/2009/11/17_cachoeira_miracema.pdf

Santa Cruz

http://www.institutocidadeviva.org.br/inventarios/sistema/wp-content/uploads/2009/11/23_santa-cruz.pdf

Santa Inês

http://www.institutocidadeviva.org.br/inventarios/sistema/wp-content/uploads/2009/11/19_santa-ines.pdf

Santa Justa

http://www.institutocidadeviva.org.br/inventarios/sistema/wp-content/uploads/2009/11/22_santa-justa.pdf

Serra Nova

http://www.institutocidadeviva.org.br/inventarios/sistema/wp-content/uploads/2009/11/21_serra-nova.pdf

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O Triângulo do Barulho


O Triângulo de ruas adjacentes à rua Direita, ruas Francisco Procópio, Cel. Josino e Barroso de Carvalho, é do barulho! São ruas de refluxo da rua Direita. Sem o Triângulo a rua Direita em dias de festa transbordaria geral, com gente pra tudo que é lado saindo pelo ladrão.

No Carnaval, então nem se fala! Quando o Renato Mercante anuncia, com seu vozeirão de tenor, pelo microfone, do palanque que todo ano é estrategicamente montado na esquina da Cel. Josino com a Mal. Floriano, a apresentação do desfile da agremiação da vez, um foguetório pipoca no ar e a platéia que se afugenta um pouco da multidão no Triângulo se aproxima das cordas de isolamento para assistir ao desfile. Os integrantes da agremiação carnavalesca neste momento sentem a responsabilidade, e não tem como evitar aquele friozinho na barriga e o arrepio dos pelos do corpo, afinal a atenção do povo foi chamada para eles, e, ainda por cima, serão julgados nos quesitos e adereços por autoridades constituídas que os aguardam no palanque. O puxador da música enredo solta o vozeirão num tom mais elevado e toda agremiação o segue. É preciso fazer bonito!

Na contramão destes, aproveitam aqueles que estão com o pote cheio para, no refluxo, irem às ruas do Triângulo para tirarem a "água do joelho". Hoje em dia, por lá, são colocados estratégicos banheiros químicos, mas, infelizmente, muitos os ignoram e preferem entornar os seus líquidos retidos fora deles, exalando no ar aquele aroma de amoníaco que se tornou típico dos carnavais.

A Barroso de Carvalho vira um fuzuê geral, comandada, principalmente, pela rapaziada do funk e hip hop. E haja disposição para encarar os decibéis do som! Quando a agremiação em desfile passa por ela, os tradicionais blocos que se formam na rabeira da agremiação ligam o piloto automático e a adentra, se desviando em zig zag das pessoas, barraquinhas de churrasquinho e bebidas, vendedores ambulantes com seus isopores, e vão em direção aquela pretensa rua que corta a Barroso ao meio, que há mais de cinquenta anos não é concluída, para ao ar livre, na maioria das vezes, esvaziarem a bexiga. Uma vez aliviados, retornam para a rua Direita para buscarem a rabeira da próxima agremiação e ficarem naquele vai e vem da folia.

Mas nem por isso o Triângulo perde seu charme. Está lá para os carnavais que vierem e para desafogar a rua Direita quando for preciso. E quem sabe um dia, desafogar também a bexiga de todos foliões nos apropriados e estratégicos banheiros químicos que por ali são colocados.

É claro que o aguaceiro indesejado não se limita ao Triângulo. Ele se concentra também em outros pontos da cidade, como na praça Dona Ermelinda e rua Jamil Cardoso. E também não é problema exclusivo de nossa cidade, sabemos que a maioria dos municípios brasileiros não aguenta mais tanto amoníaco no ar.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

QUAL ERA O CARTAZ DO FILME?


Dia destes saí de casa e fui caminhar despretensiosamente pela rua Direita. Quando passava pelo Bar do Toninho Richard, vi que a cúpula dos galistas de Miracema estava reunida: Amaro do DER, dr. Bonzinho, prof. Álvaro Lontra, Ariosto Poli, Ademir Galista, Cid Boiadeiro, Gerber Nogueira, Joel Peixoto, Antão do Doriles, ... Entrei e peguei uma garrafinha de limonada na geladeira e comi um delicioso quitute feito pela dona Beleza, e sentei um pouco para escutar a conversa: era sobre o último embate do galo Paladão do seu Amaro, um veterano galo com mais de vinte brigas no currículo. Quando acabei de tomar a limonada, pendurei a conta, me levantei e segui em frente.

Diante do Bar Pracinha vi seu Basileu e seu Osvaldo "Calçapura" sentados com garrafa de água mineral e xícaras de café nas suas frentes, conversando. Seu Oswaldo era também árbitro de futebol e tinha fama de apitar jogo armado, para impor mais respeito. Resolvi entrar e me sentar a seus lados. Pedi pro Salim, que estava atendendo aos clientes, um cafezinho e lhe perguntei como foi o jogo do Fluminense. Ele não respondeu e deu de ombros, como quem diz: sai pra lá, está a fim de fazer hora com minha cara. Mas trouxe-me o café, fresquinho e feito no coador de pano. Estava muito bom o café, mas resolvi me levantar porque a conversa era sobre o afretamento do caminhão do seu Osvaldo para compras de mantimentos em São Paulo para abastecer o Armazém do seu Basileu.

Ao sair do bar, presenciei o Mané "Catinga" vestido com o uniforme completo do Flamengo, fazendo “embaixadinhas” na frente da Barbearia Gerson. Seu "Chope", que havia patrocinado o uniforme, todo sorridente e com um charuto aceso na mão, falava: “Mané! narra aí o gol que deu o título de campeão estadual pro Flamengo hoje sobre o Fluminense há! há! ...” Seu Gerson veio pra porta da Barbearia e ria que não se agüentava. Seu Heleno Moura, que provavelmente devia estar indo para a reunião dos galistas, parou para assistir ao show do Mané "Catinga", mas só balançava a cabeça em sinal de reprovação. O seu Tim, lá da calçada de sua Farmácia Granato, de semblante sério, ficava limpando e recolocando os óculos pra ver se enxergava melhor.

Atravessei a rua e entrei no Salão de Sinuca do seu Vavate. Estavam todos ao redor da segunda mesa de sinuca assistindo partida apostada entre o Tetel e o Bilu. Haviam horas que os dois estavam jogando. Tetel estava ganhando e alegre como sempre, fazendo a plateia rir com seus causos de bem dotado. A molecada naquele dia estava proibida de jogar, porque quem estava na gerência do salão era o seu Arco Verde, que só deixava jogar quem não tivesse conta pendurada.

Saí do Salão e decidi ir até o Cinema Sete para ver o cartaz do filme do dia. Ao atravessar a rua sem olhar, quase entrei na frente da bicicleta do seu Zebim. O que me salvou foi o alerta do assobio dele, se não teria trombado.

Chegando no cinema vi o Buru na calçada com uma faixa estendida pintando uma propaganda encomendada. Fiquei ali tão entretido com a arte do Buru que fui embora e me esqueci de ver o cartaz do filme.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Dom Pedro II e Miracema

Uma curiosidade que os miracemenses, de uma forma geral, tem em relação ao Barão de Miracema, cujo nome foi dado a um dos principais logradouros de Campos dos Goytacazes: o Miracema do Barão foi derivado da nossa Miracema?

É possível que sim, pelos seguintes motivos: a) o título nobiliárquico Barão de Miracema criado por Dom Pedro II foi concedido uma única vez para pessoa da mesma região da qual fazia parte Miracema, Norte Fluminense, na então província do RJ; b) nossa Miracema passou a ter este nome em 13 de abril de 1883, enquanto o Decreto Imperial s/n, que concedeu tal título, data de 19 de agosto de 1888; e c) era comum a criação de título nobiliárquico com nome de lugares.

Os títulos nobiliárquicos no Brasil foram criados pelos monarcas para agraciarem pessoas por serviços prestados a casa monarca, ao monarca ou ao país.

A única pessoa a receber o título de Barão de Miracema, foi o dr. Lourenço Maria de Almeida Batista (22/10/1839 - 22/02/1924), de Campos dos Goytacazes. Dr. Lourenço foi filho do Comendador Bento Benedito; médico; Presidente da Câmara Municipal de Campos (1873-1876); Juiz de Paz (1886-1889); Deputado à Câmara Federal, pelo Estado do Rio de Janeiro (1900); e Senador da República (1903, reeleito em 1906 e em 1916). Não deixou geração do seu casamento com Maria Sara de Almeida Batista.

Como sabemos, o motivo alegado pela população da então Santo Antônio dos Brotos para a mudança do nome foi por haver constantes extravios de correspondências por haver outra localidade com o mesmo nome ou semelhante. O novo nome escolhido, Ybiracema, extraído do tupi-guarani (Ybira – pau que brota; e Cema – nascer) não foi do agrado do dr. Ferreira da Luz – médico, poeta, de origem gaúcha e o mais importante republicano do nosso município da época, Pádua -, que, ainda baseado no tupi-guarani, substituiu o Ybira por Mira, que quer dizer gente, povo.

Ainda bem que houve a intervenção do dr. Ferreira da Luz neste episódio, porque o nome Miracema é muito mais bonito do que Ybiracema. 

Pesquisa: Dicionário das Famílias Brasileiras, de C. Bueno/C. Barata

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

EU QUERO PAZ

Osmar Perazzo Lannes Jr

“Alá-lá-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô / Mas que calor-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô.!” O Joaçaba adorava essa música. Acompanhava-a com prazer no trompete e até se lamentava por não poder sair cantando, dançando e pulando como aquela multidão ali embaixo. Quando ele via a alegria da rapaziada de todas as idades transformando em movimento sincronizado a melodia e o ritmo que saíam da banda, entendia como é que, Carnaval sim, outro também, ele não resistia ao convite sempre renovado do Tião para tocar na banda dele nos bailes noturnos do clube. Quando eles entravam no ginásio, adaptado para salão de baile, ele sempre sentia um frio na barriga, uma mistura de orgulho, seriedade e entusiasmo, a certeza de que ia fazer um trabalho muito importante. Enquanto subia os degraus da arquibancada em direção ao palco de madeira improvisado perto do canto da quadra de futebol de salão, ele se sentia como um médico cardiologista entrando no centro cirúrgico. Às onze em ponto, então, os primeiros compassos de “Cidade Maravilhosa” informavam que a banda do Tião pedia licença, mas que, nas próximas cinco horas, as tristezas do mundo iam ser barradas na entrada do clube.
O discreto sinal do Teco Cachaça fez o Joaçaba se lembrar de que estava na hora de dar a deixa para a mudança de música. Era um intervalo de quarta, prolongado por uns dois compassos, geralmente um dó-fá, porque o Tião cismava de tocar em fá maior. Era a deixa, por exemplo, para os bumbos reduzirem o ritmo, se entrava uma marcha-rancho.
“A Estrela Dalva/No céu desponta/E a Lua anda tonta/Com tamanho esplendor”. Joaçaba não se cansava de “Estrela Dalva”. Tudo nela era bonito: o ritmo, a harmonia, a letra. Uma pequena e eterna obra-prima, pensava. Como todos os anos, concordou consigo mesmo que nunca mais se fizeram músicas de Carnaval como as marchinhas e marchas-rancho dos anos 30, 40, 50 e, vá lá, concedeu, 60. Anos 70, só uma ou outra, a não ser... a não ser... esta, pensou – coração batendo mais rápido, enquanto o bumbo ralentava, junto com a deixa, agora em ré maior –, a minha música, o ponto culminante de todos os bailes de Carnaval.
“Bandeira branca, amor/Não posso mais/Pela saudade que me invade/Eu peço paz”.
Esse era o momento do que Joaçaba chamava de “viagem”. Porque era mesmo uma viagem. Quando começava “Bandeira branca”, ele deixava seu trombone no piloto automático, saía voando daquele coreto mambembe e fugia de volta para o mesmo lugar, a pracinha da sua Miracema natal, para o mesmo momento, o Carnaval de 1970, e a mesma pessoa, sua Celeste adorada. Nos três, quatro minutos que durava a marchinha, ele voltava a ser o Roberto, filho do seu Zé Joaçaba da quitanda, um rapaz de 18 anos, às vésperas de se mudar para a casa dos tios em Niterói, para terminar o Científico e realizar o grande sonho de seu pai humilde, ser aprovado no Vestibular para a Faculdade de Medicina da Universidade Federal. Aquele Carnaval era também a sua festa de despedida da cidade onde vivera desde que nascera. E, mais ainda, a despedida de uma existência simples, mas boa, dividida entre o trabalho na quitanda do pai e os estudos no ginásio da cidade. Sabia que, a partir de agora, tudo ia ser muito mais difícil.
Tinha sido justamente quando a banda de Miracema tocava “Bandeira branca” que ele literalmente tropeçou na Celeste. Alguma sinapse cósmica deve ter acontecido para que, no mesmo instante, os dois se abraçassem e saíssem pulando juntos. Haviam crescido os dois ali na cidade, haviam estudado juntos, mas até então pouco haviam se falado. Só que, nos últimos anos, ele percebera que ficava todo desconcertado na presença dela, que ela o perturbava por motivos que ele não compreendia. Ele descobriu que a achava maravilhosa. Não que ela fosse um tipo de beleza. Claro, ela era bonita, elegante, charmosa. Mas havia um ingrediente invisível e indefinível que a tornava magnética para ele.
E, naquela noite, as primeiras palavras que pronunciaram juntos, ele com o braço direito sobre o ombro dela, ela com o braço esquerdo enlaçado nas costas dele, haviam sido justamente aquelas: “Bandeira branca / Eu peço paz”. Dançaram, cantaram e pularam até de madrugada. Ele a levou até em casa naquela Quarta-feira de Cinzas. Viram-se novamente em todos os dez dias seguintes. Beijaram-se pela primeira e única vez na hora da partida dele, na rodoviária da cidade. Prometeram se escrever. Prometeram se esperar. Prometeram se amar.
Mas tudo fora muito mais difícil para o Roberto do que ele pudera imaginar. Arrumou um emprego em Niterói durante o dia, para ajudar nas despesas da casa dos tios, ia ao colégio noturno e estudava de madrugada. As cartas para Celeste foram se espaçando, assim como as respostas dela, as viagens de fins de semana para Miracema foram sendo substituídas por viagens aos feriados e, depois de algum tempo, pela ausência. Aquele amor acabou de morte morrida, lenta e dolorosa – como um coma, pensou ele, com tristeza.
Mas, curiosamente, ele nunca se esquecera daquela moça lindamente despenteada, confetes sobre os ombros revelados pelo tomara-que-caia da fantasia de pirata. E o beijo que trocaram na rodoviária havia sido, depois de tanto tempo, o único beijo de que ele se recordava em toda a sua vida, o modo como ele segurara o rosto dela com as duas mãos e o puxara para o seu, o modo como ela se apertara contra ele e retribuíra o seu carinho.
Agora, já perto dos sessenta, todo ano ele esperava pela música, todo ano ele ansiava pela viagem que o reunia por três, quatro minutos ao seu primeiro e efêmero amor.
Hora da deixa. Dó-fá de novo. “Mamãe, eu quero/Mamãe, eu quero/ Mamãããããe, eu quero mamar”. O salão parece tremer. Despediu-se mentalmente da Celeste, linda pirata de 17 anos, ombros revelados pelo tomara-que-caia de cetim, serpentinas coladas ao short vermelho, desaparecendo no limbo dos amores perdidos. Até o ano que vem, resignou-se.
Mas eis que... Meu Deus, assusta-se ele, não é que tem uma pirata parecida com a Celeste, ali, parada bem perto da cerca? E não é que ela está olhando para cá ? Joaçaba pára de tocar e afasta lentamente o trompete da boca, que vai se abrindo no exato ritmo em que seus olhos vão se arregalando. Não parece a Celeste. É a Celeste, grita o Joaçaba. Os músicos só percebem que há algo errado quando ele joga o trompete no chão e, com uma agilidade inesperada, pula para o salão, dois metros abaixo. Alguém grita. Começa a correria. Joaçaba olha em volta, atordoado. Onde está ela ? Ali ! E sai correndo, esbarrando, derrubando, atrás da menina de 17 anos, que já saiu do salão e vai em direção às piscinas. Ninguém consegue detê-lo. Perto da entrada do vestiário, Joaçaba finalmente alcança a moça.
Ela se vira. Eles se olham. “- Celeste?”, gagueja o sexagenário. “- Sou eu”, responde ela. “- Mas... como é que pode? Você ainda é uma menina”, ele grita em desespero.” Ela sorri irônica: “- Fiquei te esperando, Roberto. Você não me disse que ia voltar ?”
O tumulto às suas costas indicou ao Joaçaba que ele ia ser agarrado pelos seguranças, que já se aproximavam correndo. De repente, uma sinapse cósmica. “- Vem, Celeste”, ele gritou, puxando-a em um arranco para si.
Seus lábios se tocaram e suas bocas se abriram. Eles agora estavam juntos. Estavam na rodoviária de Miracema de novo. Mas, desta vez, ele não ia embarcar no ônibus. Não. Ele ia ficar. Eles iam se casar, iam construir uma vida juntos. Ele não ia perder a Celeste pela segunda vez. Uma eletricidade fez o seu corpo se sacudir todo.
* * * * *
“- Ele consegue ouvir a gente, Doutor ?”, perguntou a filha, olhos lavados, fisionomia abatida. “- Ninguém sabe com certeza”, respondeu o médico, tom de voz compreensivo. Era a sua rotina na UTI. “- Não se sabe”, repetiu. “- A corrente mais aceita defende que durante o coma o paciente delira, que sonha, mas não se tem certeza.”
A mãe abraçou a moça com ternura. “- Vem, querida. Amanhã a gente volta.”
As duas encaminharam-se para a saída. Antes de chegar à porta da UTI, porém, a filha voltou-se para olhar uma última vez para o seu pai, o Dr. Roberto Joaçaba, cardiologista de renome nacional. Não teve certeza, mas ela podia jurar que nesse momento viu seu pai tremer todo, como se uma eletricidade o tivesse perpassado, ao mesmo tempo em que seus lábios machucados e ressequidos formavam os contornos de um sorriso de felicidade.

Fonte: http://literaturadecamara.sites.uol.com.br/DESAFIO7DO2.htm

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

CALÇAMENTO 116 x 36 ASFALTAMENTO


O calçamento das ruas de Miracema teve início na gestão do Capitão Antonio Ventura Lopez como prefeito do município de Pádua (1927-1929). Uma vez eleito prefeito, Ventura Lopez criou a subprefeitura no 2º distrito, Miracema, e indicou para subprefeito Virgílio Damasceno.

O primeiro calçamento foi em parte da rua Direita. Os moradores desta parte que foi calçada tiveram que contribuir. O passeio público e ¼ da rua na frente destas casas foram custeados por seus moradores.

O Capitão Altivo Linhares quando foi interventor no município de Pádua, em 1930, prosseguiu com os calçamentos de ruas em Miracema.

Daí em diante, os calçamentos de ruas fizeram parte das obras de praticamente todos prefeitos que governaram Miracema. Ultimamente, as pedras vêm cedendo lugar para o asfalto. Talvez porque o custo do asfaltamento tenha ficado competitivo diante do calçamento, uma vez que requer menos mão-de-obra?

Depois de muitos anos de uso, as pedras dos calçamentos ficaram lisas e com as quinas moldadas, proporcionando melhor rolagem dos pneus. A manutenção de calçamentos é atividade mais simples do que outro tipo de piso, além de não impermeabilizar o solo e ter outras vantagens em relação ao asfalto.

Em agosto passado, fomos surpreendidos ao tomar conhecimento da edição do Decreto nº 144, de 1º de abril de 2009, da Prefeitura Municipal de Miracema, que promoveu o destombamento das principais ruas do centro da cidade, assim como dos oitis que as adornam. E o decreto, na sua exposição de motivos, utilizou terminologia incomum, para decreto, para justificar o destombamento, como “de forma ardilosa”, “ardil perpetrado” e “demonstrando forma sorrateira”, além de afirmar que não houve manifestação do Conselho Municipal de Cultura da época do tombamento. Mais surpresos ainda ficamos ao saber que o decreto de tombamento, o Decreto nº 349, de 2 de janeiro de 1995, ao qual se referiu o Decreto nº 144/2009 na sua exposição de motivos, havia sido promulgado pelo mesmo gestor, em mandato passado. E para completar o quadro de surpresas, soubemos que o Conselho Municipal de Cultura da época do tombamento havia sim se manifestado claramente pelo tombamento, por intermédio do Ofício nº 3, de 19 de dezembro de 1994.

Depois desta trapalhada toda da administração municipal na promulgação do Decreto nº 144/2009, esperamos que desistam desta idéia de cobrir com a negritude do asfalto os paralelepípedos das principais ruas do centro da cidade, que tanto embelezam Miracema e enchem de orgulho seus moradores.


Fonte de pesquisa: Departamento de Estatística e Publicidade/Serviço Técnico de Publicidade (Miracema – Memória da Fundação desse Município Fluminense, 1936); e blog PV de MIRACEMA (http://pvmiracema.blogspot.com/2009_08_01_archive.html) .

Título: baseado na enquete feita pelo blog O VAGALUME (http://blogovagalume.blogspot.com/2009/10/resultado-da-enquete-do-blog.html), cujo resultado foi divulgado em 2 de outubro de 2009, pelo mesmo blog, por meio do post “RESULTADO DA ENQUETE DO BLOG”.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Verão de 1977: um miracemense seminu pela praça no Rio de Janeiro

Era véspera do dia do padroeiro da cidade do Rio de janeiro, dia de São Sebastião, uma quinta-feira, inesquecível para mim aquele fatídico dia.

Eu era solteiro, recém formado, tinha emprego fixo e dividia um apartamento de quarto-e-sala na Praça São Salvador com o meu amigo Carlos Luís, que era da mesma cidade do interior do Estado do Rio que eu, Miracema.

O meu amigo, como tinha noiva que morava no Flamengo e estava fazendo economias para casar, dificilmente aproveitava os feriados prolongados para viajar, mas naquele feriado ele havia decidido visitar seus pais em Miracema, pois sua namorada iria acompanhar a mãe em visita a parentes no Maranhão.

Diante daquela oportunidade de estar só no apartamento, eu não perdi tempo, cancelei a viagem que sempre fazia a Miracema nos feriados como aquele e fiz convite para a minha namorada vir me visitar.

Ao chegar do trabalho, naquela quinta-feira, resolvi sair para fazer compras em um supermercado próximo, para bem receber minha namorada. Quando voltei, com todos aqueles apetrechos de limpeza, fui fazer faxina no apartamento, pois já havia muito tempo que não se fazia uma boa limpeza nele. Ora por falta de tempo, ora por preguiça de seus ocupantes, em até mesmo para contratar uma faxineira.

Logo após colocar as compras na cozinha, fui para o quarto trocar de roupa e, como estava só, fiquei à vontade, apenas de cueca. Depois de iniciada a limpeza, comecei a transpirar devido ao forte calor que estava fazendo naquele dia de verão. Então decidi abrir totalmente a janela da sala para que entrasse ar. A praça proporcionava ar fresco que entrava no apartamento depois de passar pelas folhagens das frondosas árvores que ali existem.

O prédio da praça São Salvador era muito antigo, poucos pavimentos e apenas dois apartamentos por andar, um de frente e outro de fundos. Havia um porteiro, já com certa idade, que não morava no prédio e só trabalhava durante o dia e folgava nos feriados e fins-de-semana. A luz dos corredores era a do tipo que se apaga automaticamente, após um tempinho.

O foxter da senhora viúva que morava no térreo, cuja janela ficava ao lado da única porta de entrada do prédio, funcionava como uma espécie de campainha para todos os moradores, quando alguém entrava ou saía do prédio. Por duas ou três vezes, o senhor aposentado que morava no apartamento de frente do segundo andar quis, numa reunião de condomínio, expulsar aquele cachorro do prédio. Mas, foi desmotivado, pela bondade da senhora sua esposa e de alguns dos vizinhos com os quais discutia o assunto. Estes, compreensivos da solidão de uma senhora viúva ou preocupados com a consequente falta de segurança que o prédio poderia ficar.

O Carlos Luís se divertia com as discussões que o cão-porteiro-campainha provocava e gostava de acirrá-las irritando ao máximo aquele cachorro, toda vez que ele entrava ou saía do prédio, principalmente quando chegava à tarde do trabalho. Ele fazia isso com um pé dentro da portaria e outro na escada de fora, que ficava debaixo de uma pequena marquise. Quando a dona do cachorro chegava na janela para ver por que motivo seu adorado cãozinho estava tão nervoso, ele imediatamente entrava para o interior do prédio, sem dar chance para ela ver quem estava irritando o seu “adorável” cãozinho. Carlos Luiz se divertia em ouvir aquela velha senhora praguejando.

Já passava da meia-noite quando vi que a lixeira de casa estava muito cheia e resolvi esvaziá-la na do prédio. Como já era tarde da noite e reinava absoluto silêncio no corredor do andar deixei a porta aberta para aproveitar a luz advinda do apartamento e fui, mesmo de cueca, à lixeira. No exato momento em que abri a porta da lixeira, senti e reconheci não só aquele vento frio que lambeu minhas costas, devido à corrente que se formou com a janela e a porta do apartamento abertas com a entrada de ventilação do corredor do prédio, como também o estampido de porta se fechando abruptamente. No instante que a porta bateu, fechei os olhos devido ao susto que levei e, por alguns instantes, me neguei a abri-los porque não queria acreditar que pudesse ser a porta do meu apartamento que havia sido fechada. Quando abri os olhos, naquela absoluta escuridão, fui tocar na porta para acreditar de uma vez por todas no que tinha acontecido, e lamentei a minha falta de sorte.

Diante daquela situação, comecei a pensar em como resolvê-la: bater no vizinho do apartamento dos fundos, explicar o ocorrido e pedir ajuda. Descartei esta hipótese, porque o vizinho não era só morador novo, estava recém casado também. Acordá-los naquela hora da noite para explicar a minha falta de sorte, só de cueca, seria muito constrangedor. Como não tinha nenhum conhecido no prédio, achei melhor aguardar a chegada do porteiro, pela manhã do dia seguinte.

Enquanto esperava o porteiro, sentado naquela escada de cimento, gelada, do corredor e se levantando de tempo em tempo para acender a luz, lembrei que o porteiro não viria trabalhar, pois era feriado naquela sexta-feira. Então resolvi descer até à portaria para ver se conseguia ajuda, mas, quando estava diante do portão de entrada do prédio, buscando coragem para abri-lo, avistei uma patrulha da polícia passando em uma ”joaninha“, circulando bem de devagarzinho pela praça deserta, assustei-me e procurei esconder-me, pois achei que não saberia explicar aquela situação e poderia ir parar na cadeia. Foi então que lembrei do quartel do corpo de bombeiros que ficava de frente para a praça a uns 100 metros do meu prédio e pensei em pedir ajuda lá, pois pelos bombeiros eu achava que não seria preso. Assim pensei.

Demorei uma hora ou mais para tomar a coragem de enfrentar somente de cueca o percurso até os bombeiros: da portaria do meu prédio eu não tinha visão de toda praça, mas pelo que se conseguia ver e pelo horário avançado, imaginei que não deveria encontrar ninguém. A porta do prédio era daquelas que só abria sem chave por dentro.

Durante o percurso até os bombeiros encontrei com um casal de namorados dentro de seu carro parado, provavelmente o rapaz deveria estar deixando a bela jovem em casa e estavam se despedindo. Depois das caras de espanto que fizeram quando me viram, deram barulhentas gargalhadas. Encontrei também com dois garis que pararam de trabalhar para observar atentamente e interrogativamente a minha corrida pela praça.

Chegando no quartel, não vi nas guaritas os soldados que deveriam estar de plantão. Parado na frente do quartel, sem saber exatamente o que fazer, resolvi entrar para ver se via alguém e escutei vozes de pessoas conversando vindas do fundo da parte térrea daquele prédio. Fui em direção das vozes e me deparei com quatro soldados jogando baralho. A reação dos soldados quando me viram ofegante da corrida e também de medo, somente de cueca, foi diversa: uns ficaram com cara de quem foi surpreendido roubando, outro apanhou o fuzil que estava encostado na parede e me apontou. Eu fui logo me explicando, mas os soldados não só se recusaram a ajudar-me, como foram inóspitos, falaram como policiais que repreendem um contraventor apanhado em flagrante. Um deles chegou a dizer que não tem justificativa para uma falta de respeito daquelas, entrar desapercebido em um quartel militar só de cueca.
Enfim, acabaram compreendendo a situação constrangedora que me encontrava, mas disseram que eu teria que pedir auxílio da polícia, pois a eles não competia tal ajuda. Desolado, me despedi para tentar ajuda em outro lugar, quando ouvi de um deles, o que me pareceu mais sensibilizado com a minha falta de sorte, que poderia agir fora do regulamento, poderia colocar uma escada naquela culposa janela da sala para que eu pudesse entrar no apartamento, desde que me identificasse imediatamente após.

E assim foi feito, me identifiquei e recompensei, com grande satisfação, alívio e felicidade, o compreensível soldado, com quase todo dinheiro que havia sacado no banco para passar aquele “feriadão”.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O ribeirão Santo Antônio agoniza, mas não morre, como diria nosso grande sambista Nelson Sargento

Como muitos sabem, a usina de açúcar Santa Rosa, que existiu em Miracema, acumulava os resíduos da moagem da cana-de-açúcar, denominados de vinhoto, e soltava-os no ribeirão, assim como as mecânicas que davam fundos para o ribeirão, costumeiramente despejavam óleo queimado de motor de combustão nele, envenenando sua água, sem que nenhuma autoridade do município impedisse.

Lembro que quando isso acontecia muita gente, inclusive eu, ia para a margem do ribeirão, com um pedaço de pau, tentar matar e recolher os peixes que ficavam na tona d’água a procura de oxigênio. Eram lambaris, mandis, bagres, traíras, cascudos, canelas-de-moça, sairus, bocarras e carás. Os cascudos e carás eram os mais resistentes, mas nem mesmo eles resistiam aquele vinhoto. A mortandade de peixes se estendia por cerca de 20 quilômetros, da usina a desembocadura do ribeirão no rio Pomba, em Paraoquena.

Mesmo assim, apesar destes envenenamentos todos, estas qualidades de peixes resistiram por muito tempo. Hoje em dia, parece que só existem peixes imigrantes no ribeirão, como a tilápia.

De lá pra cá, a coisa melhorou muito em termos de consciência sobre a preservação do ribeirão, mas ainda existe muito por se fazer para despoluir suas águas, para que, quem sabe, tais peixes voltem a povoá-lo.

Quando será que as autoridades políticas de Miracema vão empunhar, com muita firmeza, prioridade e determinação, esta bandeira de lutar pela despoluição do Santo Antônio?

O Cinema Paradiso de Miracema

No cinema VII os filmes eram em preto e branco, as cadeiras eram desconfortáveis, de madeira, e normalmente o filme era interrompido várias vezes durante a sessão porque sempre acontecia da fita arrebentar, afora as gracinhas que uns gaiatos da platéia gritavam durante a sessão e os objetos que eram jogadas na cabeça do público pelo pessoal que frequentava o balcão (o povo chamava de poleiro); local onde mais tinha pulga naquele cinema. Algumas pessoas que moravam nas proximidades preferiam levar suas próprias cadeiras, para terem mais conforto. Volta e meia o Buru, bilheteiro e administrador do cinema, tinha que intervir e botar um moleque pra fora.

Em certo dia da semana, antes do filme programado e depois do noticiário, era exibido um seriado, geralmente de muita ação, que a molecada adorava.

Assisti muito drama quando criança, pois esse era o tipo de filme que mais agradava aos meus pais, e como eu os acompanhava em suas idas ao cinema, assistia comendo pipoca do pipoqueiro Daniel. Após as sessões ia para casa escutando o comentário que eles faziam sobre o filme. Dos dramas que vi naquela época o que mais lembro foi “La Violetera”. Talvez porque minha mãe tenha cantarolado a música tema do filme por muitos dias, cujo refrão lembro até hoje: “compre, compre este ramito, la violetera”.

Lembro do Cosme imitando e decorando as falas dos personagens dos faroestes americanos durante a exibição do filme, andando de lá para cá no espaço entre a tela e o início das cadeiras, e a platéia mandando ele se sentar.

Cosme era um rapaz alegre, negro, simples, analfabeto, vivia de biscate e era apaixonado por bang-bang. Para não pagar ingresso no cinema ele buscava na estação de trem a lata com o rolo do filme que ia ser exibido.

De tanto ver os filmes de faroeste, ele andava pela rua tentando pronunciar as falas em inglês dos personagens, ou simplesmente enrolando a língua, para as pessoas que cruzassem por ele na rua. Tudo na sua vida girava em torno dos filmes de faroeste, lembro dele correndo pela rua batendo com os pés no chão e com as mãos batendo nas coxas, para reproduzir som de cavalo a galope, e dando gritos de guerra de índio americano, entrecortados por imitação de estampidos de tiros de rifle. Quando eu cruzava com Cosme na rua ele me apontava o dedo indicador, como se fosse um revólver, e dizia uns grunhidos que eu nunca conseguia decifrar.

Acostumávamos distinguir o tipo do personagem que Cosme encarnava, pelas dobras na aba que ele fazia no seu chapéu de palha: dobras normais – xerife; dobras sem critério – bandido; e dobras criteriosas – mocinho. Ele dormia sob as marquises das calçadas das ruas sempre com o chapéu sobre o rosto, conforme os cowboys dos filmes que ele via.

Por onde andará o Cosme?

Outro cinema paradiso em Miracema era a sessão promovida pela loja “O Rei dos Barateiros”. Periodicamente, a loja montava quando anoitecia tela de cinema no porta da agência chevrolet, do outro lado da rua, e, de cima da marquise da Loja, projetava filmes para a população.

Lembro de um episódio que sempre se repetia: alguns moleques simulavam briga e um deles segurando um pedaço de pau lambuzado de fezes na outra ponta pedia para alguém, que não sabia da sujeira, segurar o pedaço de pau para que ele pudesse brigar no braço com o oponente. Quando esse alguém segurava o porrete, o moleque puxava-o deixando a mão da inocente pessoa toda suja. Então eles saiam correndo e rindo da vítima.


Ao ler a crônica “Assombrações” da série “Miracema de Ontem e de Hoje” do meu amigo Bebeto Alvim, no seu blog MOINHO DE PAZ (http://moinhodepaz.blogspot.com/2009/10/miracema-de-ontem-e-de-hoje.html), me ocorreu esta. Obrigado meu amigo! pela inspiração.

Quando o Mulambo parou de beber


Para estimular a criação de gado leiteiro em região próxima de grande centro consumidor, no caso o Rio de Fevereiro, o Banco da Belíndia, em certa ocasião, implantou programa de empréstimo financeiro aos produtores rurais para aquisição, ou ampliação do plantel, de gado leiteiro.

“Dinheiro barato! Prestações baixinhas! Ah! É comigo mesmo!”, disse o Mulambo.

Não deu outra, Mulambo foi lá e apanhou o tal empréstimo, e, claro, não comprou gado nenhum, gastou tudo na farra e boemia.

Um belo dia, Mulambo recebeu uma carta do Banco da Belíndia, para comunicar-lhe a data em que os fiscais do banco iriam vistoriar o gado adquirido com o empréstimo.

Aí o Mulambo entrou em desespero: “Meu Deus o que vou fazer?”. E começou a imaginar formas de se livrar dos fiscais: “Já sei, vou pedir as vacas do meu vizinho emprestadas e dizer para os fiscais que as comprei com o dinheiro do empréstimo. Não, não vai dar certo, meu vizinho não vai concordar, por causa daquele maldito cavalo dele que peguei emprestado e vendi para os ciganos que sempre passam por aqui, e disse pra ele que o cavalo havia morrido na última enchente do ribeirão. Mas acho que ele não engoliu a estória, pois sempre que pode relembra o fato com ar de quem foi enganado, e diz em tom prosaico: - É... Seu Mulambo, já ouvi muita história de enchente aqui na nossa região, que já morreu muita galinha, estragou muita plantação, que já morreram até alguns porcos, mas cavalo morrer em enchente eu nunca tinha escutado não!”

- “Ah!!!, já sei! Pensou o Mulambo. Vou apanhar empréstimo em outro banco e comprar umas vacas pra mostrar aos fiscais e, logo depois, vendo as vacas pra pagar ao banco”. Aí um amigo do Mulambo, que é bancário, disse pra ele que esse plano não era perfeito, porque os fiscais continuam a fiscalização até que toda a dívida seja saldada, e, além disso, ele não poderia dar o mesmo sítio em outra hipoteca.

-“É..., tá difícil companheiro. Acho que vou pedir ajuda pra um amigo lá do Nordeste, da época em que eu fui caminhoneiro, pra indagar por lá como foi que aquele pessoal do empréstimo da mandioca resolveu com os fiscais.” Disse Mulambo para o amigo bancário. Novamente o amigo desaconselhou-o. Desta vez, com o seguinte argumento: “Mulambo, você é barrigudinho, no máximo lambari, esse pessoal do empréstimo da mandioca é peixe graúdo, a solução deles certamente não vai estar ao se alcance, e, além do mais, não vai colar de novo. Né?”

Sem mostrar saída para a situação em que se metera, Mulambo deixou de ser aquela pessoa alegre que sempre fora e passou a ficar muito triste e contemplativo da paisagem do seu sítio, como se estivesse se despedindo dela. Ficava durante o dia, a contemplar os morros com seus pastos desocupados, as matas, os açudes, o ribeirão, o curral sem vacas..., e passava as noites pisando nos besouros e paquinhas, atraídos pela luz da varando do botequim que ele havia aberto no sítio que caíam no chão, e dando vassouradas nas aranhas caranguejeiras, atraídas pelos besouros e paquinhas pisoteados pelo Mulambo. Pela manhã ele recolhia os insetos em sacas de juta e levava para as galinhas. Chegou a juntar em noites quentes de verão, com pouco vento, cerca de duas sacas de 60 Kg. Ele dizia que a qualidade dos ovos das galinhas melhorou depois que ele substituiu o milho pelos insetos, ficaram mais afrodisíacos. Até a bandeira do Flamengo que sempre esteve hasteada na sacada do botequim ele recolheu. E o pior foi que ele não se alimentava mais normalmente, só comia ovos e, por incrível que pareça, não estava bebendo mais cerveja. O empregado dele contratado para fechar a porta do botequim, que era pesada - de ferro enrolado e presa ao teto -, começou a procurar outro emprego, pois o próprio Mulambo passou a fechar tal porta. Antes ele não conseguia fechar a porta devido ao grau alcoólico que normalmente àquela hora da noite habitualmente se encontrava.

A família e os amigos do Mulambo começaram a se preocupar com ele, pois Mulambo era o exemplo perfeito daquele ditado que diz que haveria mais paz e alegria no mundo se a humanidade estivesse a uma dose de uísque acima (não sei a origem desse ditado, mas parece que é inglês). O Mulambo quase sempre estava, no mínimo, com dez garrafas de cerveja acima, ou melhor, quase sempre estivera. Os amigos do Mulambo, quando comentavam sobre ele, diziam que todos os dias passaram a ser segunda-feira, porque esse era o único dia da semana em que o Mulambo não bebia, não por falta de vontade, mas por falta de parceiro, pois das poucas coisas na vida que ele não gostava, beber sozinho era uma delas. Aliás, ele não gostava de ver ninguém bebendo sozinho. Se entrasse uma pessoa desconhecido no seu botequim e pedisse uma cerveja para beber sozinha o Mulambo logo mostrava sua solidariedade: puxava conversa, apresentava seu copo e fazia absoluta questão de dividir a conta. “No meu botequim ninguém bebe sozinho”, dizia ele. Havia quem afirmasse que não se tratava de nenhuma solidariedade do Mulambo, que ele simplesmente procedia dessa forma, para ele mesmo não beber sozinho. O Mulambo gostava tanto de cerveja que nunca reclamava da marca que serviam para ele e jamais culpava essa ou aquela marca por uma dor de cabeça de uma ressaca qualquer. “Cerveja é sempre cerveja, temos de dar crédito para estimular o fabricante e fomentar a concorrência e, em conseqüência, melhorar a qualidade. Quem sai ganhando somos nós”, dizia ele.

Mas foi contemplando a paisagem do pasto no maior morro do seu sítio, do botequim que ele havia ali aberto, ponto predileto das reuniões a tardinha dos bebedores semi-profissionais de cerveja das redondezas, que ele teve a idéia mais criativa para resolver o problema da fiscalização do Banco da Belíndia. Aí ele não perdeu tempo, abriu logo uma garrafa de cerveja e mandou o seu retireiro, que nunca retirou leite de nenhuma vaca, chamar os amigos para expor a brilhante idéia. Assim que os amigos chegaram, Mulambo foi logo apontando para o pasto no alto do morro e dizendo: "Olha lá, olha lá, estão vendo aquelas pedras encravadas no pasto que vocês sempre me disseram que não servem pra nada e só desvalorizam minhas terras? Pois é. Serão elas a minha salvação, porque eu já até falei pro retireiro, vou pintá-las de cal e mostrar pra esses fiscais que são as vacas da raça nelore que eu comprei; subir lá pra ver de perto eles não vão porque a subida é muito íngreme e esse pessoal engravatado do banco não é alpinista. Cal, ainda bem, é coisa barata, o retireiro está sempre desocupado mesmo, portanto, se chover, eu mando caiar de novo até que esses fiscais cansem de vir aqui. Hoje quem paga a cerveja sou eu, e, está gelada, porque eu não tenho aberto o "freezer".


Crônica baseada nos causos que o Mulambo (é com u, mesmo) contava nas rodas de cerveja no seu botequim, que hoje em dia tornou-se um lindo restaurante. Os meus saudosos amigos Carlos Alberto Castelo Branco, o Beto, que fez o copy desk, e o Marcelino Alvim Tostes, o Marcelinim, a publicaram no Página Um, em setembro de 1995.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Um pouco da história em Miracema

O Golpe em Miracema

No Golpe Militar de 1964, foi preso em Miracema um grupo de amigos que tinham por hábito se reunirem na gráfica de um deles para baterem papo, inclusive sobre política. Quem conhece os hábitos das pessoas de cidades pequenas do interior, como Miracema, sabe que é muito comum formar rodas de amigos nos pontos comerciais de um deles para conversarem e passar o tempo.

O então delegado de polícia indicado para o cargo por político influente no município prendeu o referido grupo sob a acusação de que seus componentes eram subversivos e faziam parte do Grupo dos Onze, da política do Sr. Leonel Brizola. Pouco tempo depois, o grupo foi solto, pois nada ficou provado.

E na gráfica foi encontrado o desenho:



















A foto maior foi introduzida na postagem em 27/09/2014

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Pesquisa Genealógica - Imigração Italiana em Miracema




Com o intuito de mapear a origem da imigração italiana em Miracema, solicitamos os bons préstimos dos ilustres visitantes, que puderem e quiserem colaborar, a fornecerem dados para o preenchimento dos campos vagos da tabela a seguir:

Família
Região
Província
Comuna
Adolfi


Alexandre


Andreozzi Lácio Viterbo Viterbo
Aversa Calábria Consenza Roggiano Gravina
Ávila


Balbi


Barbi Emilia-Romanha Modena Mirandola
Basilio


Belo


Belot Veneto Padova
Benasi


Benedicttis Emilia-Romanha Ravenna
Beradi Campania Salerno Casaletto Spartano
Bereta Lácio Roma Roma
Bersacola Véneto Verona San Pietro in Cariano
Bertolloti


Bocafoli


Bomfiglio


Bordingnon


Bruno Campania Salerno Casaletto Spartano
Cagiano


Calcangne


Calloni


Caloi


Capute


Cava


Caveari


Cemesi


Ciuffo Campania Salerno Casaletto Spartano
Colombo Campania Salerno Casaletto Spartano
Crespo


Crosi


Cúrcio


Deninsi


Derossi


Desidério


Detogne (De Toni)


Fagundes


Falsi


Fantoni


Farinazzo


Fíngolo


Fontoura


Fracoline


Galieta


Gallozi


Garboio


Gemino


Giudice Campania Salerno Casaletto Spartano
Granato Campania Salerno Casaletto Spartano
Grazini* Lácio Roma
Grgório


Grippa


Gross


Guarino


Honorato(Honorio)**


Jaccusi


Janoni


Janotti


Lanati


Lascolla


Letiéri


Louzada


Lovisi Campania Salerno Casaletto Spartano
Luca


Ludovico


Luiz


Magaldi Campania Salerno Casaletto Spartano
Maiolli Calábria Siena Linorno
Malagris


Mangia


Marchi Emilia-Romanha Bolonha Marzabotto
Martino (Bruno de Martino) Campania Salerno San Giovanni a Piro
Mazzari


Mazzini


Mercante Toscana Crosseto Sorano (Franzione: San Giovanni Delle Contèe)
Montavani Lombardia Milão
Montes Toscana Arezzo
Motta


Novelino Campania Salerno Casaletto Spartano
Passolo* Veneto Padua
Pascotto


Pascussi Lácio Roma
Pastura


Paulante


Pelegrino


Perazzo


Perissé* Marcas Ancona
Perligeiro Campania Salerno Casalbuorno
Poli Veneto Padova Padova
Ponzé


Princisval


Procópio


Provincialli


Richard Ligúria Génova
Rigui (Righi) Emilia-Romagna Bolonha Marzabotto
Rivanelle


Rizzo Campania Salerno Casaletto Spartano
Ronzé


Rossi Emilia-Romanha Bolonha
Rouppa


Salvini


Samel (Samela)*** Basilicata Potenza Avigliano
Santini


Saraquini


Sardella Veneto Padova
Scatelano


Scott


Scramingnon Veneto Verona/Padova
Senra


Sentinelle Piemonte Turim
Serra


Soldati Emilia-Romanha Bolonha Marzabotto
Sorasi


Spinozzo


Trancredi Campanha Salerno
Tardiolli


Titonelli Veneto Treviso Farra di Soligo
Utrini Toscana Grosseto
Valponi


Volpi


Zacaria Lombardia Milão
Zanco Veneto Vicenza
Zapp Calábria

Zefira* Veneto Padua

Os nomes das famílias constantes da tabela acima foram obtidos na placa de bronze (foto ao lado) fixada na Praça D’Itália, no Vale do Cedro, para homenagear as famílias italianas que emigraram para o Brasil e se estabeleceram em Miracema (exceto os marcados com asterisco(s)).

* Nomes de noivos/noivas encontrados nos registros do cartório de Miracema pela pesquisadora Elisabeth Bruno.
**Incluído a pedido do Ronaldo Honorio.
***Incluído conforme depoimento do Ivanildo Samel.

Link para parte da Obra Logradouros de Miracema, que versa sobre a Praça D'Itália