segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O Triângulo do Barulho


O Triângulo de ruas adjacentes à rua Direita, ruas Francisco Procópio, Cel. Josino e Barroso de Carvalho, é do barulho! São ruas de refluxo da rua Direita. Sem o Triângulo a rua Direita em dias de festa transbordaria geral, com gente pra tudo que é lado saindo pelo ladrão.

No Carnaval, então nem se fala! Quando o Renato Mercante anuncia, com seu vozeirão de tenor, pelo microfone, do palanque que todo ano é estrategicamente montado na esquina da Cel. Josino com a Mal. Floriano, a apresentação do desfile da agremiação da vez, um foguetório pipoca no ar e a platéia que se afugenta um pouco da multidão no Triângulo se aproxima das cordas de isolamento para assistir ao desfile. Os integrantes da agremiação carnavalesca neste momento sentem a responsabilidade, e não tem como evitar aquele friozinho na barriga e o arrepio dos pelos do corpo, afinal a atenção do povo foi chamada para eles, e, ainda por cima, serão julgados nos quesitos e adereços por autoridades constituídas que os aguardam no palanque. O puxador da música enredo solta o vozeirão num tom mais elevado e toda agremiação o segue. É preciso fazer bonito!

Na contramão destes, aproveitam aqueles que estão com o pote cheio para, no refluxo, irem às ruas do Triângulo para tirarem a "água do joelho". Hoje em dia, por lá, são colocados estratégicos banheiros químicos, mas, infelizmente, muitos os ignoram e preferem entornar os seus líquidos retidos fora deles, exalando no ar aquele aroma de amoníaco que se tornou típico dos carnavais.

A Barroso de Carvalho vira um fuzuê geral, comandada, principalmente, pela rapaziada do funk e hip hop. E haja disposição para encarar os decibéis do som! Quando a agremiação em desfile passa por ela, os tradicionais blocos que se formam na rabeira da agremiação ligam o piloto automático e a adentra, se desviando em zig zag das pessoas, barraquinhas de churrasquinho e bebidas, vendedores ambulantes com seus isopores, e vão em direção aquela pretensa rua que corta a Barroso ao meio, que há mais de cinquenta anos não é concluída, para ao ar livre, na maioria das vezes, esvaziarem a bexiga. Uma vez aliviados, retornam para a rua Direita para buscarem a rabeira da próxima agremiação e ficarem naquele vai e vem da folia.

Mas nem por isso o Triângulo perde seu charme. Está lá para os carnavais que vierem e para desafogar a rua Direita quando for preciso. E quem sabe um dia, desafogar também a bexiga de todos foliões nos apropriados e estratégicos banheiros químicos que por ali são colocados.

É claro que o aguaceiro indesejado não se limita ao Triângulo. Ele se concentra também em outros pontos da cidade, como na praça Dona Ermelinda e rua Jamil Cardoso. E também não é problema exclusivo de nossa cidade, sabemos que a maioria dos municípios brasileiros não aguenta mais tanto amoníaco no ar.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

QUAL ERA O CARTAZ DO FILME?


Dia destes saí de casa e fui caminhar despretensiosamente pela rua Direita. Quando passava pelo Bar do Toninho Richard, vi que a cúpula dos galistas de Miracema estava reunida: Amaro do DER, dr. Bonzinho, prof. Álvaro Lontra, Ariosto Poli, Ademir Galista, Cid Boiadeiro, Gerber Nogueira, Joel Peixoto, Antão do Doriles, ... Entrei e peguei uma garrafinha de limonada na geladeira e comi um delicioso quitute feito pela dona Beleza, e sentei um pouco para escutar a conversa: era sobre o último embate do galo Paladão do seu Amaro, um veterano galo com mais de vinte brigas no currículo. Quando acabei de tomar a limonada, pendurei a conta, me levantei e segui em frente.

Diante do Bar Pracinha vi seu Basileu e seu Osvaldo "Calçapura" sentados com garrafa de água mineral e xícaras de café nas suas frentes, conversando. Seu Oswaldo era também árbitro de futebol e tinha fama de apitar jogo armado, para impor mais respeito. Resolvi entrar e me sentar a seus lados. Pedi pro Salim, que estava atendendo aos clientes, um cafezinho e lhe perguntei como foi o jogo do Fluminense. Ele não respondeu e deu de ombros, como quem diz: sai pra lá, está a fim de fazer hora com minha cara. Mas trouxe-me o café, fresquinho e feito no coador de pano. Estava muito bom o café, mas resolvi me levantar porque a conversa era sobre o afretamento do caminhão do seu Osvaldo para compras de mantimentos em São Paulo para abastecer o Armazém do seu Basileu.

Ao sair do bar, presenciei o Mané "Catinga" vestido com o uniforme completo do Flamengo, fazendo “embaixadinhas” na frente da Barbearia Gerson. Seu "Chope", que havia patrocinado o uniforme, todo sorridente e com um charuto aceso na mão, falava: “Mané! narra aí o gol que deu o título de campeão estadual pro Flamengo hoje sobre o Fluminense há! há! ...” Seu Gerson veio pra porta da Barbearia e ria que não se agüentava. Seu Heleno Moura, que provavelmente devia estar indo para a reunião dos galistas, parou para assistir ao show do Mané "Catinga", mas só balançava a cabeça em sinal de reprovação. O seu Tim, lá da calçada de sua Farmácia Granato, de semblante sério, ficava limpando e recolocando os óculos pra ver se enxergava melhor.

Atravessei a rua e entrei no Salão de Sinuca do seu Vavate. Estavam todos ao redor da segunda mesa de sinuca assistindo partida apostada entre o Tetel e o Bilu. Haviam horas que os dois estavam jogando. Tetel estava ganhando e alegre como sempre, fazendo a plateia rir com seus causos de bem dotado. A molecada naquele dia estava proibida de jogar, porque quem estava na gerência do salão era o seu Arco Verde, que só deixava jogar quem não tivesse conta pendurada.

Saí do Salão e decidi ir até o Cinema Sete para ver o cartaz do filme do dia. Ao atravessar a rua sem olhar, quase entrei na frente da bicicleta do seu Zebim. O que me salvou foi o alerta do assobio dele, se não teria trombado.

Chegando no cinema vi o Buru na calçada com uma faixa estendida pintando uma propaganda encomendada. Fiquei ali tão entretido com a arte do Buru que fui embora e me esqueci de ver o cartaz do filme.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Dom Pedro II e Miracema

Uma curiosidade que os miracemenses, de uma forma geral, tem em relação ao Barão de Miracema, cujo nome foi dado a um dos principais logradouros de Campos dos Goytacazes: o Miracema do Barão foi derivado da nossa Miracema?

É possível que sim, pelos seguintes motivos: a) o título nobiliárquico Barão de Miracema criado por Dom Pedro II foi concedido uma única vez para pessoa da mesma região da qual fazia parte Miracema, Norte Fluminense, na então província do RJ; b) nossa Miracema passou a ter este nome em 13 de abril de 1883, enquanto o Decreto Imperial s/n, que concedeu tal título, data de 19 de agosto de 1888; e c) era comum a criação de título nobiliárquico com nome de lugares.

Os títulos nobiliárquicos no Brasil foram criados pelos monarcas para agraciarem pessoas por serviços prestados a casa monarca, ao monarca ou ao país.

A única pessoa a receber o título de Barão de Miracema foi o dr. Lourenço Maria de Almeida Batista (22/10/1839 - 22/02/1924), de Campos dos Goytacazes. Dr. Lourenço foi filho do Comendador Bento Benedito; médico; Presidente da Câmara Municipal de Campos (1873-1876); Juiz de Paz (1886-1889); Deputado à Câmara Federal, pelo Estado do Rio de Janeiro (1900); e Senador da República (1903, reeleito em 1906 e em 1916). Não deixou geração do seu casamento com Maria Sara de Almeida Batista.

Como sabemos, o motivo alegado pela população da então Santo Antônio dos Brotos para a mudança do nome foi por haver constantes extravios de correspondências por haver outra localidade com o mesmo nome ou semelhante. O novo nome escolhido, Ybiracema, extraído do tupi-guarani (Ybira – pau que brota; e Cema – nascer) não foi do agrado do dr. Ferreira da Luz – médico, poeta, de origem gaúcha e o mais importante republicano do nosso município da época, Pádua -, que, ainda baseado no tupi-guarani, substituiu o Ybira por Mira, que quer dizer gente, povo.

Ainda bem que houve a intervenção do dr. Ferreira da Luz neste episódio, porque o nome Miracema é muito mais bonito do que Ybiracema. 

Pesquisa: Dicionário das Famílias Brasileiras, de C. Bueno/C. Barata

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

EU QUERO PAZ

Osmar Perazzo Lannes Jr

“Alá-lá-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô / Mas que calor-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô.!” O Joaçaba adorava essa música. Acompanhava-a com prazer no trompete e até se lamentava por não poder sair cantando, dançando e pulando como aquela multidão ali embaixo. Quando ele via a alegria da rapaziada de todas as idades transformando em movimento sincronizado a melodia e o ritmo que saíam da banda, entendia como é que, Carnaval sim, outro também, ele não resistia ao convite sempre renovado do Tião para tocar na banda dele nos bailes noturnos do clube. Quando eles entravam no ginásio, adaptado para salão de baile, ele sempre sentia um frio na barriga, uma mistura de orgulho, seriedade e entusiasmo, a certeza de que ia fazer um trabalho muito importante. Enquanto subia os degraus da arquibancada em direção ao palco de madeira improvisado perto do canto da quadra de futebol de salão, ele se sentia como um médico cardiologista entrando no centro cirúrgico. Às onze em ponto, então, os primeiros compassos de “Cidade Maravilhosa” informavam que a banda do Tião pedia licença, mas que, nas próximas cinco horas, as tristezas do mundo iam ser barradas na entrada do clube.
O discreto sinal do Teco Cachaça fez o Joaçaba se lembrar de que estava na hora de dar a deixa para a mudança de música. Era um intervalo de quarta, prolongado por uns dois compassos, geralmente um dó-fá, porque o Tião cismava de tocar em fá maior. Era a deixa, por exemplo, para os bumbos reduzirem o ritmo, se entrava uma marcha-rancho.
“A Estrela Dalva/No céu desponta/E a Lua anda tonta/Com tamanho esplendor”. Joaçaba não se cansava de “Estrela Dalva”. Tudo nela era bonito: o ritmo, a harmonia, a letra. Uma pequena e eterna obra-prima, pensava. Como todos os anos, concordou consigo mesmo que nunca mais se fizeram músicas de Carnaval como as marchinhas e marchas-rancho dos anos 30, 40, 50 e, vá lá, concedeu, 60. Anos 70, só uma ou outra, a não ser... a não ser... esta, pensou – coração batendo mais rápido, enquanto o bumbo ralentava, junto com a deixa, agora em ré maior –, a minha música, o ponto culminante de todos os bailes de Carnaval.
“Bandeira branca, amor/Não posso mais/Pela saudade que me invade/Eu peço paz”.
Esse era o momento do que Joaçaba chamava de “viagem”. Porque era mesmo uma viagem. Quando começava “Bandeira branca”, ele deixava seu trombone no piloto automático, saía voando daquele coreto mambembe e fugia de volta para o mesmo lugar, a pracinha da sua Miracema natal, para o mesmo momento, o Carnaval de 1970, e a mesma pessoa, sua Celeste adorada. Nos três, quatro minutos que durava a marchinha, ele voltava a ser o Roberto, filho do seu Zé Joaçaba da quitanda, um rapaz de 18 anos, às vésperas de se mudar para a casa dos tios em Niterói, para terminar o Científico e realizar o grande sonho de seu pai humilde, ser aprovado no Vestibular para a Faculdade de Medicina da Universidade Federal. Aquele Carnaval era também a sua festa de despedida da cidade onde vivera desde que nascera. E, mais ainda, a despedida de uma existência simples, mas boa, dividida entre o trabalho na quitanda do pai e os estudos no ginásio da cidade. Sabia que, a partir de agora, tudo ia ser muito mais difícil.
Tinha sido justamente quando a banda de Miracema tocava “Bandeira branca” que ele literalmente tropeçou na Celeste. Alguma sinapse cósmica deve ter acontecido para que, no mesmo instante, os dois se abraçassem e saíssem pulando juntos. Haviam crescido os dois ali na cidade, haviam estudado juntos, mas até então pouco haviam se falado. Só que, nos últimos anos, ele percebera que ficava todo desconcertado na presença dela, que ela o perturbava por motivos que ele não compreendia. Ele descobriu que a achava maravilhosa. Não que ela fosse um tipo de beleza. Claro, ela era bonita, elegante, charmosa. Mas havia um ingrediente invisível e indefinível que a tornava magnética para ele.
E, naquela noite, as primeiras palavras que pronunciaram juntos, ele com o braço direito sobre o ombro dela, ela com o braço esquerdo enlaçado nas costas dele, haviam sido justamente aquelas: “Bandeira branca / Eu peço paz”. Dançaram, cantaram e pularam até de madrugada. Ele a levou até em casa naquela Quarta-feira de Cinzas. Viram-se novamente em todos os dez dias seguintes. Beijaram-se pela primeira e única vez na hora da partida dele, na rodoviária da cidade. Prometeram se escrever. Prometeram se esperar. Prometeram se amar.
Mas tudo fora muito mais difícil para o Roberto do que ele pudera imaginar. Arrumou um emprego em Niterói durante o dia, para ajudar nas despesas da casa dos tios, ia ao colégio noturno e estudava de madrugada. As cartas para Celeste foram se espaçando, assim como as respostas dela, as viagens de fins de semana para Miracema foram sendo substituídas por viagens aos feriados e, depois de algum tempo, pela ausência. Aquele amor acabou de morte morrida, lenta e dolorosa – como um coma, pensou ele, com tristeza.
Mas, curiosamente, ele nunca se esquecera daquela moça lindamente despenteada, confetes sobre os ombros revelados pelo tomara-que-caia da fantasia de pirata. E o beijo que trocaram na rodoviária havia sido, depois de tanto tempo, o único beijo de que ele se recordava em toda a sua vida, o modo como ele segurara o rosto dela com as duas mãos e o puxara para o seu, o modo como ela se apertara contra ele e retribuíra o seu carinho.
Agora, já perto dos sessenta, todo ano ele esperava pela música, todo ano ele ansiava pela viagem que o reunia por três, quatro minutos ao seu primeiro e efêmero amor.
Hora da deixa. Dó-fá de novo. “Mamãe, eu quero/Mamãe, eu quero/ Mamãããããe, eu quero mamar”. O salão parece tremer. Despediu-se mentalmente da Celeste, linda pirata de 17 anos, ombros revelados pelo tomara-que-caia de cetim, serpentinas coladas ao short vermelho, desaparecendo no limbo dos amores perdidos. Até o ano que vem, resignou-se.
Mas eis que... Meu Deus, assusta-se ele, não é que tem uma pirata parecida com a Celeste, ali, parada bem perto da cerca? E não é que ela está olhando para cá ? Joaçaba pára de tocar e afasta lentamente o trompete da boca, que vai se abrindo no exato ritmo em que seus olhos vão se arregalando. Não parece a Celeste. É a Celeste, grita o Joaçaba. Os músicos só percebem que há algo errado quando ele joga o trompete no chão e, com uma agilidade inesperada, pula para o salão, dois metros abaixo. Alguém grita. Começa a correria. Joaçaba olha em volta, atordoado. Onde está ela ? Ali ! E sai correndo, esbarrando, derrubando, atrás da menina de 17 anos, que já saiu do salão e vai em direção às piscinas. Ninguém consegue detê-lo. Perto da entrada do vestiário, Joaçaba finalmente alcança a moça.
Ela se vira. Eles se olham. “- Celeste?”, gagueja o sexagenário. “- Sou eu”, responde ela. “- Mas... como é que pode? Você ainda é uma menina”, ele grita em desespero.” Ela sorri irônica: “- Fiquei te esperando, Roberto. Você não me disse que ia voltar ?”
O tumulto às suas costas indicou ao Joaçaba que ele ia ser agarrado pelos seguranças, que já se aproximavam correndo. De repente, uma sinapse cósmica. “- Vem, Celeste”, ele gritou, puxando-a em um arranco para si.
Seus lábios se tocaram e suas bocas se abriram. Eles agora estavam juntos. Estavam na rodoviária de Miracema de novo. Mas, desta vez, ele não ia embarcar no ônibus. Não. Ele ia ficar. Eles iam se casar, iam construir uma vida juntos. Ele não ia perder a Celeste pela segunda vez. Uma eletricidade fez o seu corpo se sacudir todo.
* * * * *
“- Ele consegue ouvir a gente, Doutor ?”, perguntou a filha, olhos lavados, fisionomia abatida. “- Ninguém sabe com certeza”, respondeu o médico, tom de voz compreensivo. Era a sua rotina na UTI. “- Não se sabe”, repetiu. “- A corrente mais aceita defende que durante o coma o paciente delira, que sonha, mas não se tem certeza.”
A mãe abraçou a moça com ternura. “- Vem, querida. Amanhã a gente volta.”
As duas encaminharam-se para a saída. Antes de chegar à porta da UTI, porém, a filha voltou-se para olhar uma última vez para o seu pai, o Dr. Roberto Joaçaba, cardiologista de renome nacional. Não teve certeza, mas ela podia jurar que nesse momento viu seu pai tremer todo, como se uma eletricidade o tivesse perpassado, ao mesmo tempo em que seus lábios machucados e ressequidos formavam os contornos de um sorriso de felicidade.

Fonte: http://literaturadecamara.sites.uol.com.br/DESAFIO7DO2.htm

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

CALÇAMENTO 116 x 36 ASFALTAMENTO


O calçamento das ruas de Miracema teve início na gestão do Capitão Antonio Ventura Lopez como prefeito do município de Pádua (1927-1929). Uma vez eleito prefeito, Ventura Lopez criou a subprefeitura no 2º distrito, Miracema, e indicou para subprefeito Virgílio Damasceno.

O primeiro calçamento foi em parte da rua Direita. Os moradores desta parte que foi calçada tiveram que contribuir. O passeio público e ¼ da rua na frente destas casas foram custeados por seus moradores.

O Capitão Altivo Linhares quando foi interventor no município de Pádua, em 1930, prosseguiu com os calçamentos de ruas em Miracema.

Daí em diante, os calçamentos de ruas fizeram parte das obras de praticamente todos prefeitos que governaram Miracema. Ultimamente, as pedras vêm cedendo lugar para o asfalto. Talvez porque o custo do asfaltamento tenha ficado competitivo diante do calçamento, uma vez que requer menos mão-de-obra?

Depois de muitos anos de uso, as pedras dos calçamentos ficaram lisas e com as quinas moldadas, proporcionando melhor rolagem dos pneus. A manutenção de calçamentos é atividade mais simples do que outro tipo de piso, além de não impermeabilizar o solo e ter outras vantagens em relação ao asfalto.

Em agosto passado, fomos surpreendidos ao tomar conhecimento da edição do Decreto nº 144, de 1º de abril de 2009, da Prefeitura Municipal de Miracema, que promoveu o destombamento das principais ruas do centro da cidade, assim como dos oitis que as adornam. E o decreto, na sua exposição de motivos, utilizou terminologia incomum, para decreto, para justificar o destombamento, como “de forma ardilosa”, “ardil perpetrado” e “demonstrando forma sorrateira”, além de afirmar que não houve manifestação do Conselho Municipal de Cultura da época do tombamento. Mais surpresos ainda ficamos ao saber que o decreto de tombamento, o Decreto nº 349, de 2 de janeiro de 1995, ao qual se referiu o Decreto nº 144/2009 na sua exposição de motivos, havia sido promulgado pelo mesmo gestor, em mandato passado. E para completar o quadro de surpresas, soubemos que o Conselho Municipal de Cultura da época do tombamento havia sim se manifestado claramente pelo tombamento, por intermédio do Ofício nº 3, de 19 de dezembro de 1994.

Depois desta trapalhada toda da administração municipal na promulgação do Decreto nº 144/2009, esperamos que desistam desta idéia de cobrir com a negritude do asfalto os paralelepípedos das principais ruas do centro da cidade, que tanto embelezam Miracema e enchem de orgulho seus moradores.


Fonte de pesquisa: Departamento de Estatística e Publicidade/Serviço Técnico de Publicidade (Miracema – Memória da Fundação desse Município Fluminense, 1936); e blog PV de MIRACEMA (http://pvmiracema.blogspot.com/2009_08_01_archive.html) .

Título: baseado na enquete feita pelo blog O VAGALUME (http://blogovagalume.blogspot.com/2009/10/resultado-da-enquete-do-blog.html), cujo resultado foi divulgado em 2 de outubro de 2009, pelo mesmo blog, por meio do post “RESULTADO DA ENQUETE DO BLOG”.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Verão de 1977: um miracemense seminu pela praça no Rio de Janeiro

Era véspera do dia do padroeiro da cidade do Rio de janeiro, dia de São Sebastião, uma quinta-feira, inesquecível para mim aquele fatídico dia.

Eu era solteiro, recém formado, tinha emprego fixo e dividia um apartamento de quarto-e-sala na Praça São Salvador com o meu amigo Carlos Luís, que era da mesma cidade do interior do Estado do Rio que eu, Miracema.

O meu amigo, como tinha noiva que morava no Flamengo e estava fazendo economias para casar, dificilmente aproveitava os feriados prolongados para viajar, mas naquele feriado ele havia decidido visitar seus pais em Miracema, pois sua namorada iria acompanhar a mãe em visita a parentes no Maranhão.

Diante daquela oportunidade de estar só no apartamento, eu não perdi tempo, cancelei a viagem que sempre fazia a Miracema nos feriados como aquele e fiz convite para a minha namorada vir me visitar.

Ao chegar do trabalho, naquela quinta-feira, resolvi sair para fazer compras em um supermercado próximo, para bem receber minha namorada. Quando voltei, com todos aqueles apetrechos de limpeza, fui fazer faxina no apartamento, pois já havia muito tempo que não se fazia uma boa limpeza nele. Ora por falta de tempo, ora por preguiça de seus ocupantes, em até mesmo para contratar uma faxineira.

Logo após colocar as compras na cozinha, fui para o quarto trocar de roupa e, como estava só, fiquei à vontade, apenas de cueca. Depois de iniciada a limpeza, comecei a transpirar devido ao forte calor que estava fazendo naquele dia de verão. Então decidi abrir totalmente a janela da sala para que entrasse ar. A praça proporcionava ar fresco que entrava no apartamento depois de passar pelas folhagens das frondosas árvores que ali existem.

O prédio da praça São Salvador era muito antigo, poucos pavimentos e apenas dois apartamentos por andar, um de frente e outro de fundos. Havia um porteiro, já com certa idade, que não morava no prédio e só trabalhava durante o dia e folgava nos feriados e fins-de-semana. A luz dos corredores era a do tipo que se apaga automaticamente, após um tempinho.

O foxter da senhora viúva que morava no térreo, cuja janela ficava ao lado da única porta de entrada do prédio, funcionava como uma espécie de campainha para todos os moradores, quando alguém entrava ou saía do prédio. Por duas ou três vezes, o senhor aposentado que morava no apartamento de frente do segundo andar quis, numa reunião de condomínio, expulsar aquele cachorro do prédio. Mas, foi desmotivado, pela bondade da senhora sua esposa e de alguns dos vizinhos com os quais discutia o assunto. Estes, compreensivos da solidão de uma senhora viúva ou preocupados com a consequente falta de segurança que o prédio poderia ficar.

O Carlos Luís se divertia com as discussões que o cão-porteiro-campainha provocava e gostava de acirrá-las irritando ao máximo aquele cachorro, toda vez que ele entrava ou saía do prédio, principalmente quando chegava à tarde do trabalho. Ele fazia isso com um pé dentro da portaria e outro na escada de fora, que ficava debaixo de uma pequena marquise. Quando a dona do cachorro chegava na janela para ver por que motivo seu adorado cãozinho estava tão nervoso, ele imediatamente entrava para o interior do prédio, sem dar chance para ela ver quem estava irritando o seu “adorável” cãozinho. Carlos Luiz se divertia em ouvir aquela velha senhora praguejando.

Já passava da meia-noite quando vi que a lixeira de casa estava muito cheia e resolvi esvaziá-la na do prédio. Como já era tarde da noite e reinava absoluto silêncio no corredor do andar deixei a porta aberta para aproveitar a luz advinda do apartamento e fui, mesmo de cueca, à lixeira. No exato momento em que abri a porta da lixeira, senti e reconheci não só aquele vento frio que lambeu minhas costas, devido à corrente que se formou com a janela e a porta do apartamento abertas com a entrada de ventilação do corredor do prédio, como também o estampido de porta se fechando abruptamente. No instante que a porta bateu, fechei os olhos devido ao susto que levei e, por alguns instantes, me neguei a abri-los porque não queria acreditar que pudesse ser a porta do meu apartamento que havia sido fechada. Quando abri os olhos, naquela absoluta escuridão, fui tocar na porta para acreditar de uma vez por todas no que tinha acontecido, e lamentei a minha falta de sorte.

Diante daquela situação, comecei a pensar em como resolvê-la: bater no vizinho do apartamento dos fundos, explicar o ocorrido e pedir ajuda. Descartei esta hipótese, porque o vizinho não era só morador novo, estava recém casado também. Acordá-los naquela hora da noite para explicar a minha falta de sorte, só de cueca, seria muito constrangedor. Como não tinha nenhum conhecido no prédio, achei melhor aguardar a chegada do porteiro, pela manhã do dia seguinte.

Enquanto esperava o porteiro, sentado naquela escada de cimento, gelada, do corredor e se levantando de tempo em tempo para acender a luz, lembrei que o porteiro não viria trabalhar, pois era feriado naquela sexta-feira. Então resolvi descer até à portaria para ver se conseguia ajuda, mas, quando estava diante do portão de entrada do prédio, buscando coragem para abri-lo, avistei uma patrulha da polícia passando em uma ”joaninha“, circulando bem de devagarzinho pela praça deserta, assustei-me e procurei esconder-me, pois achei que não saberia explicar aquela situação e poderia ir parar na cadeia. Foi então que lembrei do quartel do corpo de bombeiros que ficava de frente para a praça a uns 100 metros do meu prédio e pensei em pedir ajuda lá, pois pelos bombeiros eu achava que não seria preso. Assim pensei.

Demorei uma hora ou mais para tomar a coragem de enfrentar somente de cueca o percurso até os bombeiros: da portaria do meu prédio eu não tinha visão de toda praça, mas pelo que se conseguia ver e pelo horário avançado, imaginei que não deveria encontrar ninguém. A porta do prédio era daquelas que só abria sem chave por dentro.

Durante o percurso até os bombeiros encontrei com um casal de namorados dentro de seu carro parado, provavelmente o rapaz deveria estar deixando a bela jovem em casa e estavam se despedindo. Depois das caras de espanto que fizeram quando me viram, deram barulhentas gargalhadas. Encontrei também com dois garis que pararam de trabalhar para observar atentamente e interrogativamente a minha corrida pela praça.

Chegando no quartel, não vi nas guaritas os soldados que deveriam estar de plantão. Parado na frente do quartel, sem saber exatamente o que fazer, resolvi entrar para ver se via alguém e escutei vozes de pessoas conversando vindas do fundo da parte térrea daquele prédio. Fui em direção das vozes e me deparei com quatro soldados jogando baralho. A reação dos soldados quando me viram ofegante da corrida e também de medo, somente de cueca, foi diversa: uns ficaram com cara de quem foi surpreendido roubando, outro apanhou o fuzil que estava encostado na parede e me apontou. Eu fui logo me explicando, mas os soldados não só se recusaram a ajudar-me, como foram inóspitos, falaram como policiais que repreendem um contraventor apanhado em flagrante. Um deles chegou a dizer que não tem justificativa para uma falta de respeito daquelas, entrar desapercebido em um quartel militar só de cueca.
Enfim, acabaram compreendendo a situação constrangedora que me encontrava, mas disseram que eu teria que pedir auxílio da polícia, pois a eles não competia tal ajuda. Desolado, me despedi para tentar ajuda em outro lugar, quando ouvi de um deles, o que me pareceu mais sensibilizado com a minha falta de sorte, que poderia agir fora do regulamento, poderia colocar uma escada naquela culposa janela da sala para que eu pudesse entrar no apartamento, desde que me identificasse imediatamente após.

E assim foi feito, me identifiquei e recompensei, com grande satisfação, alívio e felicidade, o compreensível soldado, com quase todo dinheiro que havia sacado no banco para passar aquele “feriadão”.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O ribeirão Santo Antônio agoniza, mas não morre, como diria nosso grande sambista Nelson Sargento

Como muitos sabem, a usina de açúcar Santa Rosa, que existiu em Miracema, acumulava os resíduos da moagem da cana-de-açúcar, denominados de vinhoto, e soltava-os no ribeirão, assim como as mecânicas que davam fundos para o ribeirão, costumeiramente despejavam óleo queimado de motor de combustão nele, envenenando sua água, sem que nenhuma autoridade do município impedisse.

Lembro que quando isso acontecia muita gente, inclusive eu, ia para a margem do ribeirão, com um pedaço de pau, tentar matar e recolher os peixes que ficavam na tona d’água a procura de oxigênio. Eram lambaris, mandis, bagres, traíras, cascudos, canelas-de-moça, sairus, bocarras e carás. Os cascudos e carás eram os mais resistentes, mas nem mesmo eles resistiam aquele vinhoto. A mortandade de peixes se estendia por cerca de 20 quilômetros, da usina a desembocadura do ribeirão no rio Pomba, em Paraoquena.

Mesmo assim, apesar destes envenenamentos todos, estas qualidades de peixes resistiram por muito tempo. Hoje em dia, parece que só existem peixes imigrantes no ribeirão, como a tilápia.

De lá pra cá, a coisa melhorou muito em termos de consciência sobre a preservação do ribeirão, mas ainda existe muito por se fazer para despoluir suas águas, para que, quem sabe, tais peixes voltem a povoá-lo.

Quando será que as autoridades políticas de Miracema vão empunhar, com muita firmeza, prioridade e determinação, esta bandeira de lutar pela despoluição do Santo Antônio?